Paralaxismo da Mentira
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“Usamos frases para fazer afirmações acerca de diversos objectos. Por vezes, esses objectos são eles próprios expressões linguísticas – por exemplo, podemos querer dizer que o nome “Sócrates” tem mais letras do que o nome “Pedro”, ou que a frase “Sócrates foi um filósofo grego” é verdadeira. Ora, se as frases podem fazer afirmações acerca de outras frases e, em particular, podem afirmar a sua verdade ou falsidade, imagine-se então uma frase que afirma a falsidade, não de outra frase, mas dela própria.
Poderá essa frase ser verdadeira? Em que condições o será? Em geral, uma frase é verdadeira se aquilo que ela afirma se verifica, ou é o caso. Mas o que esta frase afirma é que ela própria é falsa. Então, ela será verdadeira se, e somente se, se der o caso de ela ser falsa. Mas isto é inaceitável. Pois dizer que uma frase será verdadeira se, e somente se, for falsa equivale a dizer que a frase é simultaneamente verdadeira e falsa.
Este é, numa apresentação informal, o paradoxo do mentiroso, cuja origem costuma ser atribuída a Epiménides, o cretense que disse que todos os cretenses são mentirosos. Uma vez que ele era cretense, o seu dito aplica-se também a ele próprio, passando a ser, se verdadeiro, o dito de um mentiroso, i.e. uma afirmação de alguém cujas afirmações costumam ser falsas. Mas a interpretação realmente geradora de paradoxo do dito de Epiménides consiste em considerar que ele (o dito) afirma acerca de si próprio, não apenas que é um dito de um mentiroso, mas que é, mais directamente, um dito mentiroso.
Quer dizer: a frase de Epiménides é interpretada como sinónima de “Eu estou a mentir” ou “Esta frase é falsa” – frases que, argumentavelmente, são verdadeiras se, e somente se, forem falsas.”
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In “A Verdade De Um Ponto De Vista Lógico-Semântico” de Ricardo Santos – Fundação Calouste Gulbenkian