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Paralaxismo de Credibilidade

- Sabes que também já criei alguns blogues!? – disse-lhe eu, adoçando o café.

- Ah sim…!? – comentou ele com alguma incredulidade – vais escrever que te levantaste às 06,00 h da manhã, foste para o aeroporto tratar de embarques de carga e…

- Nada disso! – atalhei eu, sorvendo o café – a minha vida particular só interessa às pessoas mais chegadas, família e amigos, não é assunto para blogues; além disso, essa vida já é passado…; vou escrever sobre…

- Já sei!; vais contar anedotas porcas, anedotas sobre louras que… – disse ele, rejubilando.

- Isso também não! – interrompi – talvez alguns textos algo eróticos, mas nada de…

- Também não…!? – atalhou ele, sem perceber – diz-me lá então sobre quê vais tu escrever…

- Vou escrever sobre Paralaxismos!

- Para…quê!!? – disse o meu amigo, confuso.

- Bem…, para chamar a atenção das pessoas que me lerem sobre os erros que se cometem com…

- Desculpa, não era isso que queria dizer; referia-me à palavra: Para… quê!?, Parla…quê!?. – concretizou o meu amigo.

- Paralaxismos. – voltei a dizer, acabando de beber a bica.

- Pois…, Paralaxismos…; mas afinal o que é isso !!? – ripostou ele, baralhado.

- Um Paralaxismo é um desvio na análise ou na percepção do ambiente que nos rodeia, causado pela inépcia, desleixo, incúria ou laxismo do animal a que chamamos “homem”.

- Mas isso existe!?; onde foste tirar essa ideia…!? – perguntou ele, ainda mais baralhado.

- Claro que existe!!!; Deixa-me explicar melhor: os erros (os desvios), existem há já bastante tempo; e não são poucos, deixa-me acrescentar…; a palavra “Paralaxismo” é nova, foi cunhada por mim a partir dos termos “Paralaxe” e “Laxismo”, sendo que a ciência que estuda os Paralaxismos (se não for pomposo da minha parte chamar-lhe “ciência”…) irá chamar-se “Paralaxismologia”.

- Sim…, percebo vagamente…; mas de onde, essa ideia…!? – voltou ele à carga.

- Deves saber que Sua Exa. o Presidente da República se manifestou contra o laxismo da sociedade portuguesa, durante uma conferência sobre alterações climáticas realizada na Universidade do Algarve.

- É verdade, ouvi falar sobre isso; que grande farpa ! (passe o termo…) – disse o meu amigo, rindo.

- Daí ter reflectido sobre o assunto e chegado à seguinte conclusão: o laxismo do nosso povo é realmente uma chaga que já vem de longe; os portugueses não se preocupam, não querem saber, é um “deixa andar que amanhã logo se vê” confrangedor ; tudo o que se possa fazer para curar essa doença será, penso eu, bem vindo. – continuei.

- Talvez tenhas razão…! – disse ele, pensativo.

- No entanto, tentar baixar o laxismo para níveis mínimos é bastante difícil; além disso não é, só por si, suficiente porque…

- Pensas que não…!? – conjecturou ele, acendendo um cigarro.

- Repara: com menos laxismo, tu passas a pagar os impostos a tempo e horas, mas continuas a dizer que não sabes para onde vai o dinheiro, pois os pobres são cada vez mais pobres e os ricos são cada vez mais ricos…

- Lá isso é verdade… – confirmou ele, no meio de uma argola de fumo.

- Com menos laxismo, exerces plenamente o teu dever de cidadania votando (baixando assim a abstenção), mas continuas a pensar que o teu voto não serve para nada, porque “só mudam as moscas”.

- Parece que és bruxo… – tornou a confirmar.

- Com menos laxismo, trabalhas melhor, mais correctamente, não dás baixas fraudulentas, mas continuas a resmungar que o patrão, cuja assiduidade no local de trabalho deixa muito a desejar, vai comprar outro carro; além disso, os colegas que, porventura, se tenham “baldado” mais vezes vão, mesmo assim, acabar por receber o mesmo valor em “broas”.

- Pois vão!, eles é que a sabem toda… – disse o meu amigo, peremptório.

- Como vez, para diminuir o laxismo é preciso também que as pessoas se dispam de certas ideias fixas, estereotipadas, de certos erros de análise, tomando o que é pelo que não é, e vice-versa; é preciso que ajuizem melhor as inferências tomadas de ânimo leve, sem qualquer base, sem substrato, tomando assim consciência dos erros que cometem. Juntando os erros de desvio (paralaxe) ao “laissez-faire”, ao “deixa-andar” (laxismo) vem a dar Paralaxismo. – completei, recostando-me na cadeira.

- Penso que fiquei mais esclarecido; mas…desculpa a ousadia…, a malta não te vai ligar nenhuma!! – disse ele, vexatório.

- E porque não!!? – invectivei, meio admirado.

- Porque as pessoas que lerem os teus “posts” ,(é assim que se diz, não é…?) , vão comentar que essa treta da Paralaxismologia foi uma coisa inventada por um gajo qualquer que não tem mais nada que fazer; um tresloucado que vem agora aborrecer a malta com ideias absurdas; um sujeito que ninguém conhece de lado nenhum…

- Ah!, então é isso… – disse eu, percebendo o ponto de vista.

- Vou pedir-te desculpa novamente mas… sabes que entre amigos não deve haver subterfúgios. – continuou, meio encabulado.

- Claro!, não faças cerimónia… – roguei.

- Ouve lá!: quem és tu para mandar postas de pescada sobre esses assuntos??; ainda se fosses um Abrupto, ou um Causa Nossa, ou um Jumento…!!; esses sim, têm nome, têm historial, são considerados!!! – terminou ele, com certo desdém.

- Agradeço a franqueza com que expressaste a tua opinião… – agradeci eu, pegando numa caneta.

- Pois é o que penso, caro amigo… – rematou ele.

- No entanto, se te dignares alguma vez a passar os olhos pelos meus blogues, aqui ficam os endereços.

– anotei os nomes num pedaço de papel, passei-os para o seu lado da mesa e levantei-me.

- As bicas ficam por minha conta; não ficas a perder tudo!! – finalizou o meu amigo, irónico.

- Obrigado também por isso…

O meu amigo chamou o empregado, pagou as bicas, levantou-se também, deu-me um aperto de mão e despediu-se.

Enquanto vestia o casaco, reparei que o papel com os endereços tinham ficado no tampo da mesa. Não foi grande a surpresa, eu sabia que o meu amigo tinha uma excelente memória…

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