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Paralaxismo Linguístico

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O exemplo que se segue foi tirado da linguagem ou linguagens da imprensa, tendo os três títulos seguintes aparecido em The Observer, The Sunday Times e The Sunday Telegraph no dia 12 de Dezembro de 1976:

1 – NUS regrets fury over Joseph
2 – Student leaders condemn insult to Keith Joseph
3 – Student chiefs “regret” attack on Sir Keith

Estes títulos dizem respeito a uma série de acontecimentos relacionados com o encontro do National Union Of Students e com Sir Keith Joseph, um membro importante da ala direita do partido conservador na oposição no Parlamento. Na sexta-feira, 10 de Dezembro, Keith Joseph tinha tentado assistir ao encontro como observador. Identificado, foi insultado e convidado a sair, na sequência de uma decisão votada pelos delegados. Todos os membros da comissão executiva do NUS, à excepção de dois, votaram a expulsão de Keith Joseph. No dia seguinte, o executivo emitiu uma declaração em tom jocoso, que se poderia tomar como um pedido de desculpa implícito a Keith Joseph. Os jornais noticiam sucintamente a cena ocorrida durante o encontro, dando mais relevo à declaração de sábado e aos comentários de vários protagonistas e partes interessadas no assunto.

À primeira vista, estas três frases parecem dizer a mesma coisa. Contudo, encerram conotações claramente diferentes no tom que usam – conotações que estão, aliás, em consonância com a “linha” política de cada um dos três jornais. Mas, quando olhadas de perto, estas três frases oferecem análises diferentes da “realidade” que referem.

A maneira de nomear os intervenientes é significativa pois, neste campo, as convenções da língua inglesa denotam grande regularidade e são muito reveladoras.

O “Joseph” de The Observer sugere formalidade e distanciamento; o “Sir” de The Sunday Times tem a conotação de respeito, enquanto o nome próprio “Keith” insinua intimidade.

Estas conotações coincidem exactamente com as características políticas dos jornais. The Observer pretende ser liberal e, portanto, é provável que não navegue nas mesmas águas de Keith Joseph; The Sunday Telegraph é de direita e certamente admira um político como ele, enquanto o “Keith Joseph” de The Sunday Times parece indicar absoluta neutralidade. O facto de The Observer incluir a sigla “NUS” no título é indicação clara de que este jornal reconhece o National Union Of Students como sendo uma organização com existência legal e suficientemente conhecida dos leitores para que estes a possam identificar pelas iniciais.

Student leaders” e “student chiefs” – o segundo com as suas implicações de certa violência e desacato – revelam uma atitude de menos apoio. A sintaxe de “student leaders” poderia significar “pessoas que lideram estudantes” ou “pessoas que estão a estudar para líderes”, ou mesmo “estudantes que lideram estudantes”. O equívoco pretende minar o estatuto das pessoas em causa. “Student leaders” como “student chiefs” lembram certas frases que insinuam estatutos de menor valor como “petty tyrant” (tirano de trazer por casa), “student nurse” (enfermeira estagiária), “junior officer” (oficial subalterno), “learner driver” (aprendiz de condutor), “boy king” (rei-criança), etc.

Não é preciso saber muito de linguística para se comprovar a validade destas considerações. Mas o facto é que reagimos mesmo a tais estímulos e que as conotações referidas não aparecem por acaso – nascem de convenções sistemáticas contidas na maneira de usar a nossa própria língua. Se não tivéssemos termos de comparação, aceitaríamos passivamente a versão do nosso jornal sem repararmos no enviesamento.

Mas há outras diferenças mais profundas e insidiosas. As palavras “regrets”, “condemn” e “regret” são variantes subtis que envolvem modificações importantes de significado. Embora “regret” e “condemn” queiram basicamente dizer “censurar”, diferem em pontos importantes. De facto, “condemn” é um acto, nomeadamente um acto de fala, pois diz-se mesmo “state condemnation of” (condenar alguém).

Quando The Sunday Times emprega “condemn”, está simplesmente a referir a declaração do NUS condenando o insulto a Keith Joseph, mas o jornal não se compromete quanto à veracidade ou falsidade dessa declaração. Por outro lado, “regret” ou é um acto de fala ou um estado de espírito, pois pode-se “declarar que se lamenta” ou pode-se “lamentar algo” (no sentido de penitenciar-se). Em princípio, quando The Observer diz: “NUS regrets”, está a ser ambíguo, pois pode pretender uma de duas coisas: ou referir que NUS declarou lamentar o sucedido ou que NUS se penitencia pelo facto. No segundo caso, The Observer está provavelmente disposto a aceitar a sinceridade do NUS pois não há dúvida de que a estrutura frásica permite fazer essa leitura.

The Sunday Telegraph não nos deixa margem para dúvidas. Ao escrever “regrets” entre aspas, o jornal declara que está apenas a relatar um acto de fala, lançando implicitamente dúvidas sobre a sinceridade desse acto: “eles dizem que lamentam, mas não acreditamos que lamentem de verdade”. Outra diferença entre “condemn” e “regret” reside em o primeiro ser transitivo e o segundo reflexivo, no sentido em que condenamos as acções alheias mas lamentamos as nossas ou, pelo menos, lamentamos as acções de alguém por quem somos responsáveis – o pai lamenta o acto do filho ou o responsável de um grupo o acto da sua equipa. Esta distinção torna-se crucial em relação às palavras “fury”, “insult” e “attack” porque a sintaxe incompleta não expecifica quem foi violento, quem insultou ou quem atacou. Somos nós que fornecemos os sujeitos omissos com base no que “condemn” e “regret” sugerem. The Sunday Times insinua que não foram os “student leaders” quem insultou Keith Joseph; para The Observer, foi NUS que foi violento, enquanto The Sunday Telegraph implicitamente aponta para “student chiefs” como tendo sido os que atacaram.

Atente-se, por fim, no contraste que a preposição “over” estabelece tanto com “to” como com “on”. Estas duas não deixam dúvidas de que Keith Joseph foi objecto de insulto e ataque, enquanto “over” permite atribuir a Joseph outros papeis, principalmente o de responsável pela violência de NUS. Se analisarmos a ordem das palavras da esquerda para a direita, veremos que nos três títulos NUS é agente da acção, sendo Keith Joseph o objecto ou a vítima.

Uma análise superficial leva-nos a pensar que NUS fez algo a Joseph, simplesmente porque em inglês se parte do princípio de que o substantivo à esquerda da frase é o sujeito e o substantivo à direita é o objecto. Em 2 e 3, as posições “to” e “on” reforçam o papel que cada um desempenha, mas em 1, a preposição “over” sugere a possibilidade subversiva de afirmar o contrário: “Joseph provocou a violência de NUS” :

Sujeito => lamenta violência contra => Objecto (2 e 3)
NUS Joseph
Compl.Directo <= violência (causa) <= Sujeito (1)

Em termos muito informais, o que aqui sugiro é que The Observer “dá uma no cravo e outra na ferradura”. Ao mesmo tempo que implicitamente atribui a NUS certa responsabilidade no desenrolar dos acontecimentos, justifica a sua acção ao lançar, em última análise, as culpas sobre Keith Joseph. Por outro lado, tanto The Sunday Times como The Sunday Telegraph analisam os factos de maneira menos equívoca, sugerindo, em ambos os casos, que Keith Joseph foi a “vítima”, sem nunca aludirem à possibilidade de ele ter desempenhado qualquer papel mais activo.

Poderia dizer-se que há uma diferença de “tom” nestes títulos, provocada por pormenores de língua, tais como a conotação pejorativa de “chiefs” e as aspas que conferem não-factividade a “regret”. É certamente correcto apontar estas divergências, tanto mais que os diferentes tons se harmonizam perfeitamente com as diferentes ideologias destes jornais.

Para The Observer, NUS é um facto perfeitamente normal da vida, enquanto para The Sunday Telegraph, as organizações de estudantes constituem um perigo e talvez mesmo uma ameaça.

Os leitores que fielmente lêem estes jornais deixam-se penetrar por tais conotações estilísticas e ideologias, sem mesmo se darem conta delas. Estas questões de tom e atitude são já suficientemente importantes para serem objecto de comentário crítico, mas a estrutura linguística destes títulos acarreta consigo uma consequência de maior gravidade.

Uma análise mais cuidada mostra que eles diferem profundamente na maneira como apresentam a estrutura básica do acontecimento a que se referem. Com grande subtileza, criam imagens totalmente diversas de quem fez o quê a quem, atribuindo responsabilidades a uns ou a outros na análise que fazem do conflito entre NUS e Keith Joseph.

Cada uma das três versões oferece um ponto de vista diferente: para a maioria do público leitor, os jornais são o único elo de ligação ao acontecimento propriamente dito. Sendo assim, a estrutura da língua é determinante para os leitores captarem o que realmente aconteceu. Isto equivale a dizer que, embora os acontecimentos em que estiveram implicados NUS e Keith Joseph realmente se tenham dado nos dias 10 e 11 de Dezembro de 1976, a linguagem em que são apresentados torna-se para o leitor um elemento constitutivo (e não meramente de reflexão) para ele poder captar esses mesmos acontecimentos.

Os títulos acondicionam os factos em três “embalagens” diferentes, de tal maneira que cada jornal e os seus leitores acabam por ver, entender e avaliar os acontecimentos de acordo com o modo como a estrutura da língua os analisa.
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In “Crítica Linguística” de Roger Fowler – Fundação Calouste Gulbenkian (tradução de Maria Luisa Falcão e Isabel Mealha)

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