Paralaxismo Sexual
Ele era piloto da aviação comercial; viajava muito, parava pouco; na cidade, como em casa; tinha uma mulher linda, esbelta e carinhosa; amava-a e, tanto quanto sabia, era correspondido.
No tempo em que este caso se passou, ele estava na rota Lisboa-Tóquio, com voos quase seguidos e pouco descanso.
No decurso de uma estada em Tóquio, e durante uma pausa para não acumular horas de voo, severamente controladas e reprimidas pelo sindicato, de modo a não prejudicar a acuidade da navegação e diminuir as ansiedades dos controladores aéreos, deambulava ociosamente pela cidade, quando um acaso fortuito deu início à situação revoltante que tratarei de descrever em seguida.
Deu-se o caso que, passando por uma loja de artigos electrónicos, encarou com uma montra cheia de artefactos, todos primorosamente expostos e apelativos; no centro da montra, uma colecção variada de óculos de sol, óculos graduados, óculos de lentes progressivas, rectangulares, redondos, oblongos, e de outros géneros e qualidades que faziam regalar a vista; no lado esquerdo da montra, num ângulo de 45º com o vidro e na vertical, um cartaz inusitado, que ostentava uma jovem japonesa completamente nua e textuado com as parangonas seguintes:
LET YOUR SHYNESS OUTSIDE,
NO OBLIGATION WHATSOEVER…
(Para os leitores que têm o infortúnio de não conhecer este veículo linguístico, com o qual grandes nomes da literatura inglesa nos deixaram maravilhas em prosa e verso, aqui vai o parêntesis com a tradução:
“Entre, dê uma espreitadela [ou “dê uma olhada” em português do Brasil]
deixe a sua timidez aí fora, sem qualquer tipo de compromisso…”)
Claro que foi precisamente isso que o nosso protagonista fez; dirigiu-se ao balcão, ainda com algum receio, e foi recebido por um escultural exemplar do género feminino; se não o do cartaz, pelo menos idêntico (à primeira vista…), tal foi o sorriso e a candura com que começou o diálogo:
- Posso ajudá-lo?
- Sim…, quer dizer, vi o cartaz ali fora, e…
- Vem perguntar pelos óculos…
- Bom…, não sei realmente do que se trata mas…, fiquei curioso!
- Concerteza!, eu passo a explicar: são óculos que desnudam qualquer pessoa vista através deles e que…
- Como assim!?, quer dizer então que se vê com eles qualquer pessoa “em pelota”…!?
- Desculpe, mas não conheço o termo…
- Quero eu dizer: vêem-se as pessoas completamente nuas…!?
- Sim, é precisamente isso que acontece; no entanto, a pessoa-foco não fica realmente sem roupa…; mercê de umas lentes especiais, tratadas com um polímero de alta performance, fazem a desconstrução de toda a vestimenta, deixando assim o corpo natural em completa exposição.
- Ah!, está a brincar decerto…, não acredito!
- Pode crer senhor, é verdade!…; este produto foi exaustivamente testado nas mais variadas situações, tendo sido reportadas e registadas 98% de prestações válidas; além disso todos os exemplares estão certificados pelas mais afamadas casas de óptica de renome mundial, cuja garantia é entregue juntamente com o exemplar, no acto da compra.
- Posso experimentar…!?; por exemplo, estes rectangulares com aros “tartaruga”; vou até à porta e…
- Muito bem, estes então!; mas talvez fosse mais conveniente fazer o teste aqui dentro…
- Consigo…!?
- Se assim o entender, pois porque não…!?
- Vou acomodá-los, então…
- Um momento, por favor; deixe-me primeiro explicar como funciona…; premindo este botão, ajusta automaticamente a visibilidade, obtendo uma focagem optimizada em função da distância; este outro aqui, dissipa eventuais luminescências existentes no meio ambiente, para maior nitidez; ainda outro, aqui, serve para ocultar os seus olhos aos outros olhos que o cercam, de modo a precaver qualquer vislumbre das sua intenções…
- Percebo…
- E, por último, este quarto botão, que inibe as capacidades de todos os outros; fica assim com óculos normais, sem qualquer capacidade de desconstrução; serve também para ligar, pois tem uma função “toggle”: liga-desliga; ajuda a desenfastiar….
- Pois…
- Como pode verificar, todos os botões se encontram discretamente incrustados na haste direita, de modo a serem usados ergonomicamente, anulando também a percepção da sua utilização específica; também temos a variante para esquerdinos (ou “canhotos”, como dito pelo vulgo)…
- Eu sou destro; coloco-os então…
- Eu estou pronta, senhor; quando quiser…
….. ….. ….. ….. ….. ….. ….. ….. …..
- OH…!!!!!; AH…!!!!!; QUE BELEZA…!!!!!; QUE ESPECTÁCULO…!!!!!; QUE MARAVILHA…!!!!!
- Está a gostar da experiência, senhor…!?
- Sim…! Sim…! Sim…!; A menina tem uns seios de bojo médio, bem arqueados, com uma ligeira elevação rosada junto dos mamílos; estes estão intumescidos na horizontal, aparentando tamanho de um centímetro…
- Quer que me aproxime mais…!?
- Sim… só mais um pouquinho, por favor…; Assim está bem…!
- Pronto, a esta distância, então; mas continue, continue…
- O seu umbigo está extraordinariamente bem formado; uma covinha de vénus com resquícios do cordão umbilical, mas que não destoam, antes lhe dão um ar de fruta apetecível…
- Ah!, Ah!, Ah!, tão gentil e romântico…
- Não escarneça, só estou dizendo a verdade…!!; ainda bem que não usa “piercing”, pois esconderia com ele essa rica pérola natural…
- Ai!, Ai!… tem veia poética…
- A sua cintura… a sua cintura…; que curvas tão sinuosas…, que simetria de contornos…, que ajuste tão perfeito entre o dorso e as ancas…; que pernas…; estou realmente maravilhado…, vou levar os óculos!!!
- Então…, não faz o teste completo…!!??; olhe que só aceitamos devoluções com defeito de fabrico, embora não tenhamos razões de queixa…
- Mas…, claro…, se insiste…!;
Amigo leitor: poderás estranhar a ausência das últimas apreciações sobre a anatomia da bela japonesa, julgando tratar-se de um lapso textual, falta de linhas, sempre prontas a desaparecer quando menos se espera; ou, quiçá, uma prosápia do nosso piloto, tão português como os seus compatriotas que, confrontados com situações do foro sexual, sempre intimidantes e delicadas, se eximem a essa apreciação, calando-se timidamente encabulados.
Não!; ele fê-lo…!
Eu é que tomei a liberdade (liberdade de narrador…), de escamotear essa preciosa e, por ventura, já tida como certa, descrição, por uma razão muito simples: não é por mim que se virá a saber qual a disposição real, qual o enquadramento ortogonal que certo órgão apresenta em relação ao todo que é o corpo da mulher chinesa (a mulher japonesa está incluída…); no que me diz respeito, esse eterno mistério ficará por esclarecer “ad eternum”, até ao fim dos tempos; deixo ao teu critério desvendà-lo por outra via, se a ânsia te obriga ou, se preferires, viver com ele estoicamente, com, ou sem, elucubrações oníricas…
Por mim, nunca…!
Quanto ao que se passou a seguir, se se passou alguma coisa, antes ou depois de abandonar a loja, não é da minha conta, nem da tua; escuso, portanto, de entrar em cenários hipotéticos, sempre pouco rigorosos e, acima de tudo, as mais das vezes, irreais e fantasiosos; posso, no entanto, esclarecer que ele pagou, guardou os óculos, o certificado e a garantia, agradeceu à jovem empregada o extremado profissionalismo com que foi atendido, e saiu.
Como devem calcular, a viagem Tóquio-Lisboa fê-la ele com grande expectativa, tal era a vontade que tinha de experimentar com calma aquela maravilha da ciência e da técnica, habituar-se à sua manipulação, ajustar a posição dos dedos ao respectivo botão, praticar na claridade, na sombra, na penumbra, enfim, dispor deles quase como quem fuma um cigarro; onde, senão em casa, no aconchego do lar, usando a mulher como cobaia (a palavra pode ser um pouco vexatória para o género feminino, mas é assim…), poderia ele alcançar estes objectivos?; não noutro lado!
Parece-me ouvir murmurar, leitor: “- Que maçada, tanto “parlapié”, tanta lenga-lenga!; passa mas é à parte em que ele chegou a casa…!!”; é o que farei.
Quando chegou a casa, ia radiante; eram talvez umas seis horas da tarde; aparelhou os óculos, abriu a porta de mansinho, pousou cuidadosamente a mala junto da “camilla” do hall de entrada, foi pé-ante-pé pelo corredor, prescrutando a sala, a cozinha, o escritório, e foi encontrar a mulher no quarto, deitada na cama, completamente nua; ao seu lado, o seu melhor amigo, também piloto que, soube depois, estava de folga…
Tirou os óculos, voltou a pô-los, carregou no botão “toggle”, pois não se recordava já se o tinha accionado a propósito, carregou em todos os botões, qual trompetista executando uma ária frenética; voltou a tirar os óculos; voltou a pô-los; quanto às roupas, nem sombra…
A cena mantinha-se estaticamente a mesma; nenhum som, nenhum movimento, nenhuma expressão facial no casal (se não é abusivo o emprego do termo…), nada!; somente o fumo de dois cigarros acesos persistia na sua inexorável ascensão, como que desmentindo tratar-se da pintura “Sdraiato” de Modigliani, caso ele também tivesse incluído na sua tela a figura de um homem (e os cigarros…).
De repente, furioso, caiu em si e percebeu…
Berrou desalmadamente, arremessou com os óculos contra a parede, voou disparado para o escritório, ligou o computador, carregou o “outlook”, e começou a escrever um “e-mail” para o fabricante dos óculos, apresentando uma veemente reclamação:
“ – Tão caros que foram e já estão avariados…”